A aparição

No começo, as pessoas que passavam na US Route 2, com destino a Bethel, ficavam impressionadas com aquela casa de 2 andares, chaminé alta como a copa das árvores e janelas sempre fechadas. Muitos faziam questão de perfilar na frente do casarão para tirar fotos que seriam guardadas como lembranças. Depois, com o passar do tempo, já não queriam aquela imagem como pano de fundo, pois a imponente mansão se parecia mais com mosteiro mal assombrado do que propriamente um castelo.

– O que teria acontecido? – perguntavam os moradores nos encontros dominicais na porta da igreja, ou quando passavam de carro pela região.

– Será que ainda existe alguém morando ali?? – argumentavam outros. O certo é que ninguém sabia o que de fato havia acontecido.

A casa havia sido construída pelo Sr James Preston nos anos de 1960. Ela ficava a 500 metros da rodovia que liga Bangor à cidade típica de Bethel, ao norte do estado do Maine, e era acessada por uma estradinha vicinal onde mal cabia um carro. O telhado branco se destacava no tom avermelhado da madeira. A porta era uma peça maciça de carvalho, enfeitada de cravos de metal envelhecidos.

Protegendo o pátio interno, a uns 50 metros da entrada, ficava o portão de ferro, permanentemente trancado. O quintal era circundado por uma cerca de madeira, com paus roliços e travada por tábuas de carvalho pintadas de preto. Não era incomum deparar com pessoas se pendurando nos mourões da sebe, tentando enxergar o que existia dentro daquela cercania.

Durante a sua construção, poucas pessoas da cidade trabalharam na obra, por isso o grande mistério em torno do assunto.

O Sr Preston era uma pessoa de pouca conversa. Ninguém sabia de onde ele viera e nem quando havia chegado. Nas poucas vezes em que era visto, quando saía para fazer compras no mercado da cidade, era objeto de curiosidade dos habitantes. Tinha quase 2 metros de altura, muito magro e o cabelo grisalho sobrava por baixo da aba do chapéu.

Os olhos, de um azul profundo, fitavam o interlocutor com intensidade, quando alguém tinha a oportunidade de falar com ele.

Na casa não se sabia da existência de outras pessoas, pois ele nunca abria o portão e não recebia ninguém. Quando aparecida na cidade, dirigia uma picape Ford vermelha, ano 1967, com a carroceria toda envergada pelo transporte de madeiras e plantas que ele cultivava em sua propriedade.

 Fazia as compras, pagava em dinheiro e voltava para casa.

Certa vez o xerife o abordou para saber detalhes de sua vida. Perguntou o motivo dele ter escolhido o Maine para fixar residência, especificamente naquele local ermo e solitário.

Ele não deu muitas informações, e como seu prontuário não identificou nenhuma anotação digna de preocupação, a autoridade policial não o incomodou mais.

Uma década depois de construída, a ação do tempo começou a deteriorar a propriedade. Já era possível notar fissuras entre as tábuas do quintal, de onde se podia observar que as árvores frutíferas morreram esturricadas pela falta de água.

A trilha de acesso, que saía da estrada principal até o portão estava tomada de erva daninha.

A chaminé, há muito não expelia fumaça, sinal de que os moradores estavam inativos por alguma razão. O xerife tentou encontrar uma explicação para o ocorrido, entretanto, após infrutíferas buscas na propriedade, não encontrou vestígios suspeitos. Bateu por diversas vezes na porta e ninguém atendeu.

 Como não havia nenhuma denúncia ele imaginou que o velho deveria ter ido embora, assim como havia chegado.

Em Bangor residia a família King. O pai, Stephen, nascido em Portland, era um escritor em busca de reconhecimento.

Desde pequeno, escrevia tirinhas para revistas em quadrinhos, e pequenas histórias de terror, que vendia em semanários pela cidade e na faculdade. A esposa Tabitha King, era sua incentivadora.

Eles se conheceram na juventude e logo se casaram. Da união, vieram 3 filhos, uma menina e dois meninos. A família enfrentava dificuldades para se manterem, o que pressionava para que Stephen se desdobrasse em vários trabalhos para conseguir complementar a renda.

Enquanto isso, seus romances eram recusados pelas editoras o que o deixava deveras frustrado.

No Maine o céu fica encoberto quase o ano inteiro. O inverno é gélido, com ventos fortes, enquanto o verão é agradável, com temperaturas por volta de 20º graus Celsius. No outono as folhas adquirem tons coloridos, entre o vermelho, o laranja e o amarelo, deixando a paisagem com uma beleza exuberante.

É a época de aproveitar o clima para curtir os passeios, frequentar as praias e os pontos turísticos.

Stephen havia prometido viajar com a família no final de semana, e na sexta-feira ele acordou bem cedo, pois precisava preparar os sanduiches para a viagem. O trajeto até Bethel duraria cerca de 2 horas e ele queria chegar antes que a cidade estivesse muito cheia.

Havia alugado um trailer e depois das 10 horas o local ficava bastante tumultuado.

Saíram de casa por volta das 7 horas e o trânsito estava bem tranquilo. Colocou uma fita cassete para tocar e o som de um rock romântico invadiu o carro. Logo que pegaram a estrada ele avistou o casarão abandonado.

Aquela visão fantasmagórica o impactou de forma arrasadora.

Sua mente entrou em parafuso. Seu corpo estremeceu como se houvesse recebido uma descarga elétrica. Não conseguia desviar os olhos daquela casa. Estava hipnotizado como se alguma coisa quisesse que ele fosse até lá.

Tabitha notou o semblante carregado dele. Seguiu seu olhar em direção à casa, percebendo de cara o que o impactara tanto. Stephen não disse uma palavra. Continuou dirigindo cada vez mais devagar até parar no pequeno trieiro que dava acesso à entrada principal.

Desceu do carro e ficou estático olhando aquela paisagem desolada.

– O que o papai está olhando, mamãe?  – perguntou Naomi.

– Não sei, filha. Deve ser aquela casa abandonada – respondeu Tabitha.

Stephen caminhou vagarosamente pela trilha e chegou até o portão. Empurrou a estrutura de ferro e as folhas duplas do portão se abriram com um rangido. Ele sentiu um calafrio, suas pernas tremiam. Atravessou o que um dia havia sido um jardim, agora tomado de relva e todo tipo de praga e chegou até a porta principal.

Os ferrolhos da porta estavam gastos. Ele notou que não havia tranca. Empurrou com força e a madeira cedeu, abrindo um espaço para sua passagem.

Dentro da casa os móveis estavam dispostos de forma organizada, porém tomados de teias de aranha e poeira. Um cheiro de podre invadia o ambiente. Talvez a mistura de madeira molhada com mofo.

– Isso parece cheiro da morte – murmurou.

Stephen seguiu em frente e chegou até a cozinha. Panelas enferrujadas, restos de comida grudadas, pratos em uma pia seca, e muita, muita sujeira.

– “O que aconteceu nesta casa”? – perguntou para si mesmo.

Não dava para imaginar, mas alguma coisa triste e tenebrosa havia se passado ali.

Voltou para a sala e uma grande tarântula preta desceu pela parede. Depois outra e mais outra. Parecia que haviam adotado aquela casa como moradia. Acessou a escada para o pavimento superior e a cada degrau que pisava um rangido estranho ecoava pelo ambiente.

No final da escada uma grande teia de aranha fazia uma barreira para a sala de descanso. Tentou abrir espaço com as mãos, porém aquelas habitantes peçonhentas começaram a caminhar em sua direção. Ele acendeu um isqueiro e queimou um pouco do emaranhado de teia, fazendo-as recuar.

Um pequeno corredor dava acesso aos três quartos existentes. Abriu a porta do primeiro e não havia nada, apenas a cama empoeirada pelo tempo. O segundo quarto encontrava-se desarrumado, como se alguém tivesse dormido e levantado sem arrumar os lençóis.

Abriu a porta do último quarto e uma cena espantosa arregalou seus olhos.

Deitados sobre o estrado 3 corpos jaziam sobre a cama. Ou o que restava deles. Ressecados pelo tempo, sobravam apenas o crânio esbranquiçado com um sorriso permanente.

Um facho de cabelo grisalho, acima do crânio maior, supunha-se um esqueleto bem comprido. Era de um homem com certeza. Uma cabeleireira viçosa amparava o crânio pequeno, que deveria ser de uma criança na faixa de 12 anos. No outro lado da cama, os fios tingidos de loiro denunciavam que uma mulher jazia ali. Deveria ser a mãe.

Uma cena grotesca!

Teriam se envenenado simultaneamente para morrerem todos juntos e deitados na mesma cama? Teriam sido mortos por alguém e deixados apodrecer sem que ninguém soubesse? Ou teriam sido picados pela enorme cobra que ele viu se movimentar e sair debaixo dos lençóis que cobriam a caveira daquelas pessoas?

Não dava para saber.

A grande cobra sibilava e se movia lentamente em direção a Stephen. Ele percebeu o perigo e foi se afastando lentamente para não provocar a ira da serpente. Poucos passos adiante alcançou a escada e desceu até o andar térreo dirigindo-se para a saída.

A 3 passos da porta ele ouviu um barulho estranho. Parecia um gemido ou um suspiro profundo, não sabia dizer. O som era oco e longínquo, como se fosse o ronco de alguém dormindo no quarto vizinho.

Stephen parou aterrorizado!

– Será que estavam vivos e dormindo?! – murmurou. Não é possível! Concluiu mentalmente. Antes de cruzar a porta ele olhou para trás e quase caiu de costas.

A menina encontrava-se de pé no final da escada. Segurava a serpente com as duas mãos. Sua cabeça não tinha músculos, nem pele. Seus olhos eram apenas os buracos que um dia enxergaram. Sorriu para ele com aquele sorriso eterno dos dentes que sobraram no crânio. Os cabelos cacheados desciam pelo esqueleto que um dia fora um corpo.

Stephen fechou os olhos. Estava tendo uma alucinação! Aquilo não podia ser verdade.

Abriu-os novamente, fitando a escada. Não havia ninguém. Somente o vento que entrava pela fresta da porta balançava as teias de aranha queimadas pela chama do isqueiro. Voltou para o carro trôpego, cambaleando entre as árvores.

Quando sentou-se ao volante, Tabitha perguntou o que havia acontecido.

– Você está pálido e ofegante, querido. O que tinha lá dentro?

Stephen não respondeu. Pegou uma garrafa de água e tomou todo o liquido de uma só vez.

Sua garganta ardia e seu peito arfava como se tivesse corrido uma maratona. Deu partida no carro e no primeiro retorno voltou para casa sem dar explicação. Sua esposa e os filhos ficaram sem entender, mas preferiram ficar calados.

Chegou em casa, trancou-se no seu escritório e começou a escrever. Uma semana depois ele deu um manuscrito para Tabitha validar.

Era a história de uma menina com poderes psíquicos que infernizava a vida de uma cidade para se vingar dos abusos que sofria da mãe e dos colegas de escola. Deu o nome ao romance de Carrie. Pensou em mandar para uma editora, mas desistiu, pois o achava muito ruim.

Jogou-o no lixo.

Sua esposa o resgatou e pediu que o lapidasse. Após as correções, uma editora topou publicar e Stephen King recebeu U$ 2.500,00 de direitos autorais. Foi seu primeiro cachê de escritor, o que na certa alavancou sua carreira para sempre. Até hoje ele se pergunta:

– “O que seria de mim se não visitasse aquela casa abandonada pertinho da minha residência e da qual nunca ouvira falar”.

Com certeza ninguém responderá essa pergunta.

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