Sonhos que voam

Matilde enfiou as peças do uniforme na sacola, e saiu apressada do quarto. Correu até a cozinha, abriu a geladeira e pegou uma maçã. Um pouco antes havia feito o café, e para não perder o hábito, tomou outro gole. Deixou a xícara na mesa e seguiu para o elevador. Como gostava muito daquele líquido preto, cheiroso e viscoso, mesmo sabendo que não fazia bem para o seu estômago. O médico havia orientado para diminuir o consumo e dar prioridade para as frutas. Ela estava tentando seguir a dieta, mas que o cafezinho era uma tentação, isso era! Enquanto esperava o elevador, devorou a maçã, mastigando-a com casca e tudo.

Estava ansiosa. Ultimamente, não conseguia organizar seu tempo. Iria chegar novamente atrasada no trabalho.

Matilde era uma mulher madura, que carregava no rosto as marcas do tempo. Suas bochechas outrora viçosas e rosadas, agora, formavam sulcos por onde a pele escorregava rumo ao queixo. Ela tentava disfarçar usando cremes e produtos de beleza. Fazia massagens diárias, empurrando a pele de baixo para cima, em movimentos simétricos, com as mãos espalmadas. Segundo orientação da dermatologista, era um bom exercício para recuperar o tônus da pele.

Gostava de sentir-se bonita e desejada, e para isso, valia a pena o esforço. Acontece que o tempo é implacável e vai seguindo uma toada, independente da nossa vontade.

Seu andar era firme, desinibido, entretanto, as calças não eram tão justas como aos 20 anos, quando as nádegas tinham vida própria, balançando uma de cada lado, no sacolejo estonteante das pernas torneadas. Com o passar dos anos, aquela protuberância erótica movia-se como se fosse apenas um volume. O tempo havia juntado as duas partes, que ocupavam um só espaço.

Sentia dores nos joelhos, resultado das noites inteiras de plantão, quase sempre andando de um quarto para outro, levando conforto e esperança aos pacientes. Os tornozelos e as pernas também inchavam, dando mostra de que o tempo cobra os maus tratos dispensados ao corpo.

Tomava remédio para pressão e para queda de cabelos. Estes ficavam cada vez mais ralos e finos. Os fios brancos demandavam uma correção no cabelereiro a cada 30 dias. Ela o descoloria, fazendo luzes para disfarçar os fios brancos.

Era o sinal do stress emocional, resultado do trabalho incessante e da falta de cuidado com a saúde. Casa de ferreiro, espeto de pau – já diziam os mais velhos.

Matilde tinha um sorriso franco e bonito. Os dentes não eram branquinhos como as próteses de atualmente, mas também não eram amarelados. Uma vez a cada 06 meses ela fazia uma visita ao dentista o que ajudava a mantê-los bonitos e saudáveis. Os olhos eram um mistério. Não eram pretos e nem castanhos, o que seria comum em uma morena clara. Na verdade, eles tinham aquela cor de mel, em tom claro, quase transparente. Uma pena que ela os escondiam detrás dos óculos pesados. Poderia usar lentes de contato. Com certeza os silos grandes realçariam os sonhos emanados daquelas pupilas cristalinas.

Juntando tudo era uma bela mulher. Um tanto desgastada pelo tempo, mas que viveu as diversas fases da vida da melhor maneira que pode.

No frescor dos anos, uma menina bonita, que tirava o sossego dos rapazes. Desfilava com uma saia curta se orgulhando das pernas grossas e torneadas. Depois surgiu uma donzela intrépida e sonhadora. Queria formar uma família, mas só encontrava quem queria gozar em suas pernas e depois em suas entranhas. Com o passar do tempo o amadurecimento transformou a fogosidade em calmaria. Curtia a vida e o sexo de forma dosada, sem exagero.

E a história fez seu curso na vida de Matilde, como os rios constroem seus caminhos através dos vales.

Chegou ao hospital um pouco atrasada, vestiu o uniforme e correu para posto de atendimento.

Quando os pacientes foram atendidos e o local ficou mais calmo o interfone tocou. Era a chefe de enfermagem chamando-a para uma conversa. Ela já sabia que vinha bronca. Quando entrou na sala, ficou de pé e ouviu o sermão:

– Atrasada novamente, Matilde. Assim você prejudica suas colegas que tem de ficar esperando a sua chegada.

– Desculpe, chefe. Isso não vai acontecer novamente.

– Espero que sim. Do contrário, terei que tomar atitudes. Coisa que não gostaria de fazer.

– Desculpe, e obrigado pela paciência – disse ela, saindo em seguida.

Sentia-se humilhada, mas a culpa era dela. Estava sendo relapsa no trabalho, como também na vida pessoal, e isso, só tinha uma culpada: ela mesma.

Voltando para o posto, recordou-se de quando a conversa entre elas era bem diferente.

Alguns anos atrás, havia terminado o plantão e dirigia-se para o vestiário. Precisava de um banho, mais do que de se alimentar. Estava louca para trocar de roupa, tirar o uniforme e colocar uma vestimenta normal. Chegar em casa, tomar uma taça de vinho e descansar. Era tudo ela queria. Quem sabe, ouvindo uma música suave e apaixonada não se convenceria que “tudo valia a pena, quando a alma não é pequena”, como dizia o poeta.

Quando entrou no vestiário ela deu de cara com a enfermeira chefe. Por coincidência, ela também havia encerrado o expediente naquela hora. Ela já havia tomado sua ducha e tirava a roupa de uma sacola. Estava nua, como viera ao mundo. Pegou a calcinha e ficou girando-a entre os dedos. Era uma bela mulher, na plenitude de seus 35 anos.

Matilde ficou parada, sem saber direito o que fazer. Gostaria de esperar a chefe terminar de se trocar, para então tirar a roupa. No entanto, tinha a impressão que ela esperava que ela se despisse. Não podia ficar ali, parada e sem ação. Afinal, o banheiro era para todas usarem e não fazia sentido ela não se mover. Meio sem jeito ela desabotoou a blusa e pendurou no cabide, sob o olhar atento da colega. Vacilou um pouco, e devagar soltou o fecho do soutien. Os seios saltaram como se estivessem acorrentados.

Com os olhos estatelados, a enfermeira chefe exclamou:

– Como são lindos!

Matilde estava morta de vergonha. Suas faces ficaram rosadas e seus olhos fitaram os pés. Instintivamente cobriu os seios com as mãos, mas percebeu o ridículo e deixou-os à mostra. Tinha que continuar a se despir, senão ficaria muito esquisita aquela cena. Abriu o zíper na parte posterior da saia e soltou para baixo. A peça caiu no chão do banheiro, deixando-a apenas de calcinha. A colega se aproximou, andando como uma tigresa. Matilde ficou paralisada, não sabia como reagir.

– Como são lindos seus seios, Matilde – repetiu. Você colocou silicone? – perguntou.

– São naturais, Zélia. Herdei de minha mãe, que Deus a tenha. Os seios dela nunca caíram, assim como os meus.

– É um privilégio. Posso tocar? – perguntou Zélia.

Matilde não esperava essa proposta.

Ficou vermelha e um calafrio percorreu sua espinha. Zélia percebeu que ela estava indecisa, mas entendeu o silêncio como uma forma de consentimento. Se aproximou e passou as mãos sobre aquelas abóbodas macias e suculentas. Com as pontas dos dedos subiu até os mamilos acariciando-os levemente. Aquelas carícias fizeram com que os bicos dos seios se levantassem e ficassem como dois faróis acesos.

Uma sensação estranha. De culpa por estar se permitindo algo tão inusitado; de prazer pela gostosura do momento.

Inebriada pelo contato, suas pernas fraquejaram e sua respiração ficou arquejante. Zélia aproximou um pouco mais e os dois corpos roçaram os pelos um no outro. Devagar ela puxou a cinta da calcinha de Matilde, fofando com os dedos para um lado e para o outro. Com um pouco de força fez o elástico trabalhar e passar por aquela bunda torneada e farta. Vagarosamente ela se agachou, acompanhando o movimento de descida da peça íntima.

Desceu a calcinha até os joelhos, e nesse momento, roçou seu nariz no umbigo de Matilde. Passou a língua por sua barriga e ela não resistiu a um gemido abafado.

Os pelos eriçaram ainda mais, parecendo um porco espinho se preparando para a luta. Zélia passou as mãos pelas suas nádegas ao mesmo tempo que puxava sua perna para cima. Automaticamente ela retirou uma perna e depois a outra. Fez isso como se não tivesse controle sobre seus movimentos.

Estava inebriada pelo desejo. Adorando aquele contato.

No entanto, ainda conseguia racionar. Lembrou-se de que a porta estava aberta e poderia aparecer alguma colega da enfermaria em final de turno.

– Pare Zélia! não podemos fazer isso. Pode entrar alguém.

– Não vai chegar ninguém, estamos apenas nós duas. Não precisa ficar com medo!

– Não posso! Não posso!

Matilde deu um passo para trás. Não podia continuar com aquilo. Muito menos naquele lugar. E ainda mais com a sua chefe. Ela jamais havia imaginado trocar carícias com uma mulher, mas estava gostando.

Era uma sensação diferente, gostosa, inusitada.

– Não posso continuar! –  reafirmou para si mesma.

Deu mais um passo para trás e ficou observando Zélia se afastar. Ela havia entendido a insegurança e angústia de Matilde e não insistiu. Caminhou rumo a armário de roupas e se vestiu. Não sem antes dar um selinho em seus lábios.

– A gente se vê depois – disse, saindo do vestiário.

Matilde abriu o chuveiro e se enfiou de cabeça na ducha fria. Aos poucos aquele fogo que lhe queimava a pele foi se acalmando e ela conseguiu pensar naquele incidente. Quase não acreditou no que acontecera. Parecia ter sonhado e acordado debaixo do chuveiro. Mas não adiantava se enganar. Zélia havia feito caricias libidinosas e ela gostara.

Que sensação estranha, e ao mesmo tempo, deliciosa.

Enquanto a água caía sobre o seu corpo ela reviveu em flashes alguns momentos importantes de sua vida.

Voltou ao tempo de faculdade, quando conheceu o Aurélio. Eles estavam no final do curso de enfermagem. Estudaram juntos por 04 anos, se encontrando todos os dias de segunda a sexta. No último semestre começaram a namorar, quase que por acaso.

Ele era um rapaz tímido e atencioso e Matilde nunca o vira como um possível caso. Ela o tinha como seu amigo e confidente, e até achava que ele não gostava de mulher, pois jamais o vira em companhia de alguma garota.

Estava sempre na turma e nunca se declarara para ninguém.

Naquele tempo, Matilde sonhava encontrar o príncipe encantado, mas o dedo era podre para relacionamentos, como dizia sua mãe. Os rapazes contavam mil histórias, deixavam-na caidinha, comiam a fruta e depois desprezavam o bagaço. Assim eles comentavam nos corredores.

Ela sofria com isso. Vinha de família humilde, pais separados e a mãe era doente. Tinha no seu íntimo a vontade de constituir uma família. Mas definitivamente não tinha sorte. Quando imaginava que estava engatando um caso sério, descobria que o rapaz tinha batido asas, pousando em outros galhos e levando seus sonhos despedaçados.

Nessas horas, corria para se consolar com Aurélio, seu porto seguro para o desabafo. Onde ela o procurasse, o encontrava. A impressão era que ele existia para ficar perto dela.

Às vezes, Matilde aconchegava-se em seu ombro para falar das decepções que tivera com outros rapazes. Ele a ouvia com a maior atenção e quase nunca falava nada. Apenas dizia que tudo ia passar. Jamais dissera uma única vez que se interessava em namorar com ela. Por isso, o sentimento era de amizade e confiança. Para ela era o companheiro de todas as horas.

Tratava-o como um irmão, ou como aquele primo que cresce junto e faz parte da paisagem.

Um dia, Matilde telefonou para ele. Encontraram-se no pátio da faculdade. Ela tinha os olhos vermelhos. Com certeza havia chorado antes de chegar. Ele sentou-se ao seu lado, segurou suas mãos enquanto ela falava sem parar. Normalmente ela era tímida, mas com Aurélio ela desabafava sem rodeios. Tinha confiança nele.

Contou que encontrara o namorado beijando outra garota. E ainda por cima, sua colega de estágio.

– Eu até acreditava que era minha amiga. Aquela fingida! Na frente se fazia de santinha, por traz me botava chifre. Cadela!

Havia apresentado o namorado para ela e saíram juntos algumas vezes. Só não sabia que eles tramaram pelas costas e começaram a sair escondidos. Logo ele, que prometia amor eterno. Na primeira oportunidade se envolvia com outra, debaixo do seu nariz.

– Homem não presta mesmo! São um bando de babacas e só pensam em pegar a próxima garota. Não tem sentimentos.  Boba de quem acredita neles.

Depois de algum tempo em que xingou todos os palavrões de seu repertório, ela virou-se disse:

– Não vai falar nada, Aurélio?

Ele a fitava com jeito divertido e malicioso. Ela ficou sem entender e pela primeira vez sentiu alguma coisa diferente naquele olhar. Será que nunca tinha reparado nele? Era bem interessante, para não dizer bonito?!

Ele continuou calado. Sua boca tremia ligeiramente. Sua mão apertou a dela com mais força. Chegou a causar até uma sensação ruim. Ela quase reclamou que ele estava machucando seus dedos. Mas de repente ele afrouxou o aperto e sua mão respirou. O braço estendeu até o queixo de Matilde. Ele a puxou com delicadeza, aproximou seus lábios e ela sentiu a respiração ofegante.

O beijo foi doce e gostoso. Valera a pena!

Depois ele deslizou para o pescoço, inebriando-se com o cheiro dela. Demorou um tempo roçando o nariz em sua pele. Parecia querer impregnar-se daquele aroma. Matilde esqueceu tudo que tinha falado: o namorado traíra, a amiga da onça. Beijou Aurélio com paixão e deitaram-se na grama ouvindo o canto dos pássaros. A sombra daquela frondosa árvore embalou seus sonhos novamente.

Aquele amigo inesperadamente transformado em namorado mudou os rumos da vida de Matilde. Ela que buscava um porto seguro para se ancorar, não podia sentir-se mais feliz. Havia fundeado sues sonhos em um remanso de tranquilidade.

Aurélio era tudo que ela sonhava. Paciente, companheiro, mais ouvido do que língua, e às vezes mais língua do que palavras. Aquele rapaz tímido, que ela nunca vira com nenhuma garota, se mostrava atrevido entre 04 paredes.  Audacioso, impávido e insaciável. Sabia e fazia coisas inacreditáveis. Ela não imaginava tamanha desenvoltura e tanta virilidade.

Só que o bom é inimigo do ótimo. E Aurélio começou a mudar de repente. Aquele rapaz calmo e atencioso passou a ficar viciado em sexo. Coisa de outro mundo. Só pensava naquilo.

O rapaz passava noites seguidas em claro. Quanto mais ela dava, mais ele queria. Nos finais de semana mal saía da cama para comer ou tomar banho. Queria sempre mais e mais. No começo ela achava isso o máximo, pois a libido estava nas alturas. Mas com o tempo já não aguentava mais tanta esfregação.

Suas partes íntimas ardiam, pareciam criar calos de tanta fornicação. Precisava colocar um freio no ímpeto dele. E foi isso que fez.

Matilde então começou a arranjar desculpas para não transar tanto. Gostava de sexo, mas não daquela forma. Queria namorar, conversar, tomar vinho e curtir outras coisas. Quem sabe ter filhos, era um sonho. Para fugir de tamanha pressão ela começou a dobrar os plantões e ficar menos tempo disponível. Quando estava em casa o cansaço falava mais alto, e logo ela pegava no sono.

Aurélio ficou desditoso.

Com Matilde, ele acreditou ter virado a página sobre um trauma que tivera na adolescência. Havia saído com uma garota e na hora H não dera conta do recado. Ela era muito bonita e a queridinha de todos os garotos da escola. Da turma do 9º. ano só ele ainda não tinha comido ela. Quando teve a oportunidade, foram para detrás do muro da igreja, mas a pistola não funcionou. A ansiedade tomou conta dele, a garota desatou a rir prejudicando a aventura.

Esse fato caiu na boca pequena da turma do colégio e ele virou chacota entre os colegas. Carregou esse pesadelo por muitos anos. Não tinha coragem de sair com as garotas com medo de brochar. Esse era o motivo de Matilde nunca o ter visto com outras garotas. Ele realmente não saía com nenhuma.

Até que um dia um colega do estágio teve uma conversa esclarecedora com ele.

– Toma o Viagra, moço. Você está inseguro, e isso funciona, cara. Levanta até defunto. Pode acreditar

– Mas não é perigoso para o coração? Já me disseram que acelera os batimentos e causa infarto do miocárdio.

– Ora, mas isso só pra gente velha. Você é jovem. Não vai ter problema não.

Na primeira vez que saiu com Matilde ele comprou o azulzinho e tudo foi maravilhoso. Nunca mais se desgrudou dele. Sentiu-se tão bem que foi aumentando a dose até ficar totalmente dependente. Só funcionava se tomasse o maldito antes.

Tomava um antes de começar. Logo depois de terminar a primeira tomava outro e depois outro. Até quando dormia estava de pau duro.

Com as esquivas de Matilde, Aurélio acordou os velhos fantasmas. Será que ela não estava gostando da transa? Será que sua performance estava deixando a desejar? E se ela arranjasse outro. O que seria dele? Passava horas matutando no trabalho e quando a via em casa a tesão já não era a mesma. Tomou o comprimido para ver se funcionava e o trabuco ficou adormecido. Mal sabia ele que o problema nunca fora físico, mas sim psicológico. Nenhum remédio funciona sem que a cabeça esteja boa.

Preocupado com a tristeza dele, Matilde resolveu abrir a guarda e praticar o sexo como ele gostava.

– Vamos para o motel no sábado, Aurélio. Precisamos inventar umas coisas novas. Está muito monótono aqui em casa.

Foi a senha para ele entender que alguma coisa não estava bem. Precisava melhorar e essa era a sua oportunidade. Comprou 01 caixa do adjutório e guardou no bolso da calça. Saíram para jantar e tomaram uma garrafa de vinho. Na saída ele pediu outra para levar.

Precisava ficar bem descontraído e nada melhor do que beber para ficar relaxado.

Matilde estava linda. Quando ela começou a tirar a roupa ele começou a suar. Ela colocou uma música sensual, ligou as luzes coloridas e começou a fazer “strip-tease”. Aurélio sentiu um frio na espinha que subiu até a raiz dos cabelos. Precisava corresponder à expectativa dela, senão tudo ia se perder novamente.

Apalpou as partes íntimas e o dito cujo estava dormindo. Não pode acontecer uma coisa dessas, resmungou.

Entrou no banheiro, abriu a caixinha e contou 04 comprimidos. Resolveu que não iria passar vexame, principalmente com sua namorada. Tomou logo 03 de uma vez. Guardou o último no bolso e voltou para o quarto. Matilde continuava a dançar bebericando a taça de vinho. Não percebia a angustia dele. Para ela era mais uma noite que terminaria de forma maravilhosa.

Aurélio continuou a transpirar em bicas. Seu rosto esfogueava, vermelho como um pimentão. Seu nariz entupiu e a respiração ficou difícil. Olhando para o espetáculo que era a sua namorada ele sentiu as coisas funcionarem. Desabotoou a calça, jogou-a num canto e caminhou para ela arrancando a camisa com força.

O instrumento vibrava como um cabo de aço tensionado. Estava tão duro que minava sangue pela cabeça enrijecida. Aurélio pegou Matilde pela cintura, jogou-a na cama e atirou-se sobre ela. Penetrou com força e martelou com sofreguidão. Quanto mais subia e descia, sua respiração ficava mais ofegante. De repente estremeceu e parou de penetrar.

Matilde sentiu que alguma coisa tinha acontecido. Aurélio estava muito quente e ofegante. Sua língua entumecida parou de movimentar. Sua respiração enfraqueceu, porém o pau continuava duro, muito mais que o normal.

Seu corpo descarregou o peso sobre ela, e no instante seguinte, resvalou para o lado da cama. Havia sofrido um enfarto e partira desse mundo. Matilde se desesperou. Tentou reanimá-lo, mas foi em vão. O instrumento esticado foi desinflando devagar até dobrar para o lado e ficar inerte. Não podia fazer mais nada.

Ela se vestiu e chamou a recepção do motel. Logo depois chegaram a polícia e o serviço médico. Constataram como “causa mortis” a explosão da veia arterial. Havia dilatado em excesso, como resposta a um esforço descomunal. Ela foi liberada e voltou para casa. Precisava se recompor para acompanhar as tratativas do velório. Seria uma noite longa, interminável.

Aurélio foi levado para o IML e no outro dia liberado para o enterro. Matilde acompanhou seu amado até a sepultura, enterrando uma parte de sua vida e dos sonhos que acalentava.  Ela guardou consigo aquela cartela encontrada no bolso da calça, onde ainda havia 01 daqueles malditos comprimidos que levara para sempre o seu amado.

Ela nunca imaginara que ele tão jovem precisasse tomar Viagra. Ainda mais 03 comprimidos de uma só vez.

O luto durou 03 anos. Não aquele luto de vestir-se de preto, mas o luto emocional, saudoso e sonhador. Tinha certeza que aquele companheiro era o que ela queria para toda vida. Só que ele guardava segredos, e isso de alguma forma os separou. Como sentia falta das suas cavalgadas noite a dentro. Incansável, intrépido, ao mesmo tempo, impoluto e decoroso. Às vezes acordava suada no meio da noite, com os dentes rangendo de prazer. Era a lembrança de Aurélio que aos poucos foi caindo no esquecimento.

Algum tempo depois, Matilde conheceu o Dr. Gervásio. Ele era clínico geral e atendia os pacientes na ala de emergência. Quando estava de plantão, ela o auxiliava com aqueles que precisavam de algum procedimento.  Com o tempo se inteirou de alguns detalhes de sua vida. Que a imensa tristeza estampada em seus olhos era a saudade de sua falecida esposa, que o deixara alguns anos antes. Ele não se conformava com a ausência dela e o martírio consumia sua alma.

Não demorou para que lanchassem juntos e confidenciassem os seus segredos. Ela falou do incidente com Aurélio e ele contou do câncer da esposa. Como ela sofrera nos últimos dias de vida. Chorou enquanto acalentava as lembranças. Matilde também chorou. Era muito emotiva e suas mãos tocaram o Dr. Gervásio num gesto de carinho.

Ele a convidou para jantar e depois de uma garrafa de vinho já sorriam maliciosamente um para o outro. Não tinham muito a perder, pois já haviam perdido os melhores sonhos. Começaram a se encontrar e passaram a cuidar um do outro.

Gervásio era calmo. O amor eufônico, até mesmo insosso, não arrebatava como nos tempos de Aurélio, mas cumpria o ritual. Como ele era mais velho, beirando os 75 anos, Matilde tomava o cuidado de não exigir muito. Um papai com mamãe tradicional e estava tudo bem. Ela não queria correr o risco de incentivar outro acidente sem necessidade.

Gervásio chegou a pensar em casamento, mas ficou doente 02 anos depois do inicio do relacionamento. Um enfisema pulmonar o definhou até a morte. Outra vez Matilde acompanhou todo o processo até o fim. Mais uma vez seus sonhos voavam pela janela e a deixavam em desvario.

Ficou desolada.

Porque todos os homens que se aproximavam dela a deixavam no melhor momento de suas vidas? Será que estava predestinada a ficar sozinha? Sua mãe partira para outra vida e seu pai desde muito cedo havia deixado de existir também. Ela era sozinha. Não tinha ninguém. Tivera Aurélio, um cavalo selvagem que empinou intempestivamente. Depois Gervásio, um mar de tranquilidade que a fez desejar criar uma família. Mas ele também se fora.

Matilde trancou seus sentimentos numa gavetinha do coração. Somente ela tinha a chave e não estava disposta a abrir para mais ninguém. Já sonhara muito. Já sofrera muito. Precisava de repouso sentimental. De acalmar seu coração. Dedicava tudo ao trabalho e não queria saber de novos amores.

Mas aí chega Zélia. Aquela loira fogosa e destemida abriu o armário e virou a chave da gaveta. Ao contrário de tudo que ela imaginava, aquele encontro a deixou em parafuso, sem saber como se comportar. Daria combustível para o fato inesperado ou se esquecia daquilo. Afinal ela jamais pensou em beijar uma mulher.

– Mas o que tem de mal nisso? – pensou. Zélia é uma mulher linda! – porque não?

Não teve como fugir. Zélia telefonou perguntando o que ela achara e ela respondeu que não sabia. Tinha sido algo novo e inesperado.

– Quer experimentar novamente?

– Não sei, Zélia. Acho que não estou preparada.

– Não se cobre, menina. Deixe as coisas acontecerem.

Ela ficou em silêncio. Não sabia o que falar. No outro dia saíram do trabalho e foram para casa de Zélia. No começo a timidez, as palavras soltas, os monossílabos. Depois de 02 taças de vinho e uma música suave, o relaxamento, os toques, o strip-tease, os beijos e abraços. Zélia trouxe um baseado e elas puxaram com gosto.

Foi uma noite inusitada e inesquecível. Outro muro havia sido transporto por Matilde. Desconhecido e instigante.

O sexo entre elas era diferente. Desde os toques mais superficiais até os mais íntimos as trocas eram intensas e compartilhadas. Ela descobriu outras formas de prazer e o amor floresceu.

Estavam apaixonadas e dedicadas a viver esse novo sol que descortinava. Matilde percebeu que Zélia tinha experiência. Perguntou sobre seus relacionamentos passados, entretanto, ela respondia com evasivas. Já fora casada, tinha 02 filhos, mas também já se relacionara com outras mulheres.

Matilde não soube captar a vulgaridade nas palavras dela. Havia aberto uma nova porta em seu coração, por onde transitavam emoções, sentimentos, sonhos e esperanças. Novamente voava como um passarinho desprendido da gaiola. Queria viver essa aventura de forma plena e se entregou de corpo e alma.

O relacionamento durou algumas primaveras. Matilde já considerava aquilo normal e sonhava novamente em construir castelos. Enfrentou o preconceito e a discriminação. Tudo valia a pena, avaliava candidamente, pois elas estavam apaixonadas.

Certo dia, sem querer Matilde descobriu o erro cometido. E foi do jeito mais cruel possível. Tanta confiança ela tinha em Zélia que adentrou seu escritório sem anunciar. Qual não foi a surpresa ao deparar com a namorada em beijos com o novo estagiário que fora contratado pelo hospital. Quanto ela abriu a porta, ele estava encostado na mesa e Zélia encaixada entre suas pernas. A saia levantada deduzia que a penetração estava acontecendo ali mesmo.

Uma rapidinha, cheia de tesão e sem compromisso.

Zélia olhou para ela e piscou. O sorriso malicioso demonstrava a falta de compromisso. O coração de Matilde disparou, batendo descompassadamente. Ela recuou 02 passos, fechou a porta e encostou-se na parede. Tentou seguir pelo corredor e desmaiou. Acordou na enfermaria sendo reanimada por uma colega.

– O que aconteceu Matilde. Você está com a pressão descontrolada

– Eu devo ter desmaiado. Não sei o que aconteceu.

– Fique em repouso. O plantonista virá te avaliar.

Ela ficou quieta. Não queria falar do assunto, aliás nem tinha o que falar. Deveria ter sido um sonho, pensou. Estava trabalhando demais e com certeza poderia ter alucinações. Não era possível que Zélia jurava amor eterno para ela apenas para conquistá-la, fazendo-a um joguete em suas mãos.

Constatou essa era a verdade nos dias que se passaram. Zélia não apareceu mais para os encontros e evitava conversar com ela. Cruzavam no corredor ou no refeitório sem que ela dirigisse uma palavra para Matilde. Nunca se interessou em se explicar. Quando conversavam, era meramente protocolar. Jamais tocou no assunto e não saíram novamente. Havia virado a chave ao contrário. Para ela fora uma brincadeira como tantas outras.

Matilde ficou sabendo depois, que muitas outras enfermeiras haviam sido ludibriadas pela chefe. Algumas tiveram que pedir demissão. Outras foram expostas e ficaram com tanta vergonha que mudaram de cidade. Ela era, sem dúvida, uma predadora sexual. De homens e de mulheres, não interessava. Bastava apenas que o pretendido ou pretendida se encaixasse no seu perfil.

Esse acontecimento mais uma vez escureceu os sonhos de Matilde. Ela passou a duvidar que sua vida tivesse um propósito, uma razão de ser. Em seus devaneios a felicidade era algo inatingível, que existia apenas nas novelas e nos livros. Eram contos de fada. Ela que sonhara tanto, se entregara em tantos relacionamentos, se encontrava sozinha. E com fissuras incuráveis em seu coração.

Passou a não se cuidar como antigamente, ficou relapsa no serviço e uma prostração atacou sua alma fortemente. Ao invés de regar os dias com alegria, passou a cultivar saudade e melancolia. Recordava dos seus melhores momentos, em que vivera plenas realizações. Entretanto, o que não a abandonava eram as lembranças ruins. As perdas e as decepções. Um caminho tortuoso, que atribulava sua mente com tenebrosos pensamentos.

Valeria a pena continuar a viver? Quem sabe, seria melhor descansar para sempre. Deixar de sonhar e encarar outra realidade.

Na juventude, todos os rapazes só queriam chupar seus peitos e apertar sua bunda. Penetrar com seus tendões afiados em sua intimidade mais sagrada. Depois iam embora, sem dizer adeus. Quando descobriu Aurélio, por obra do acaso, ela renovou as esperanças. Com aquele jeito canhestro ele se provou um rufião de primeira. Levou-a aos píncaros do prazer e da luxuria. Quando ele se foi ela pensou que não recuperaria. Aceitou os prazeres passageiros dos amantes de ocasião.

Sexo por prazer, sorrateiro e sem compromisso.

Até que apareceu Gervásio. Homem maduro e sereno. Sem pressa para trepar e nem para gozar. Com ele Matilde conheceu o prazer do sossego, do gozo sem gemidos e da noite dormida em aconchego. Novamente se achou premiada. O homem já falava em casamento, apesar da idade avançada. Ela nem se importava que ele tivesse 30 anos a mais. Pareciam dois pombinhos recém apaixonados. Gostaria de ter ficado com ele para sempre. Morrer juntinhos, como dizia aquela música que não sabia de quem.

Era uma poesia, com certeza.

A insônia passou a ser sua companheira inseparável. As músicas apaixonadas, daquelas que tocavam para curar dor de corno, também. Não que ela se sentisse traída. É que os versos sempre falavam de amores perdidos, despedidas sem volta, paixões interrompidas. Um pouco de tudo que ela vivera. Os drinques passaram a ter nome: “Marguerita ao ponto do Gervásio”. “Caipirinha ao gosto do Aurélio”.  As taças de vinho eram recorrentes. E os remédios tarja preta seus parceiros de desapego.

Companhias perigosas e inconsequentes, das quais ela não conseguia mais se liberar.

No final do plantão Matilde saiu do trabalho e foi para o salão de beleza. Queria ficar bonita, pois afinal era seu aniversário. Completaria 42 anos naquele dia. Enquanto a moça escovava seu cabelo recordou-se de quantas vezes comemorara a passagem dos anos. Com seu pai nunca havia comemorado. Ele partira muito cedo, vitimado pela bebida. Com sua mãe, inúmeras vezes. Na infância ela fazia bolo e enfeitava com velas. Chamava as vizinhas e cantava os parabéns. Eram boas lembranças.

Depois de adulta, cada ano era uma história. Um dia com um namorado, outro com uns amigos e até mesmo sozinha. Alguns anos com Aurélio, outros com Gervásio e outros tantos com Zélia. Muitas histórias, muitas lembranças e muitos pesadelos. Histórias boas, outras nem tanto.

– Porque estou me arrumando hoje? – pensou. Não vou me encontrar com ninguém, a não ser comigo mesma! – completou.

Em casa, preparou umas fatias de queijo, salame e azeitona. Abriu a garrafa de vinho e serviu duas taças. Colocou aquela música brega que falava de amores inconsoláveis. Brindou a taça, cada qual em uma mão. Bebericou uma e depois a outra.

– Saúde, Matilde. Um brinde aos sonhos que chegam, que pousam e depois voam para nunca mais voltar.

Colocou as taças na mesa e caminhou até à janela do apartamento. Admirou as luzes da cidade que piscavam como vagalumes. Abriu a janela. Um vento frio soprava forte. Seus cabelos esvoaçaram ao vento. Ela deu mais 02 passos, adentrou na sacada e olhou para baixo. Estava no 10º. Andar. Abriu os braços e se atirou no vazio. Um baque surdo e um sonho desfeito.

Matilde se encontrava com seu destino.

VOLTAR

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.