Uma carona indesejada

A cidade vivia em sobressalto.

O noticiário só falava desse novo perigo escondido detrás de um capacete. Mais uma moça havia sido assassinada. Eram mortes sem explicação. Ora, uma garota era baleada no quiosque de lanches na frente dos amigos; outra vez, executada com dois tiros no peito enquanto aguardava o ônibus; e aquela ciclista, derrubada com um tiro certeiro, enquanto passeava no parque. Os vizinhos cochichavam; as conversas dos botecos proliferavam. Cada um com a sua teoria.

Quem seria a próxima vítima!?

Sim, porque ele só matava mulheres. E mulheres jovens. A mais velha, se é que poderíamos chamá-la assim, tinha 42 anos. As outras vítimas, perfilavam entre 14 a 17 anos. Uma delas, uma garotinha, esperava a mãe chegar do trabalho na parada de ônibus e morreu sem saber o motivo.

Não havia pistas e nada fazia sentido. Os fatos não se conectavam. Porque ele matava? Como escolhia as vítimas? Como se proteger da sanha assassina daquele algoz? Os assassinatos foram executados de forma aleatória, assim dizia a polícia.

O fato é que ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo. Corria a boca pequena que um “serial killer” havia dominado a cidade. O assunto do momento era adivinhar onde ele faria o próximo ataque. E qual seria a escolhida. As famílias estavam com medo, e as mulheres em constante tensão. Sair de casa era um desafio.

Nas portas dos colégios os carros se amontoavam.  Motoristas paravam em filas duplas, cada qual querendo pegar seu filho em primeiro lugar. Não entendiam que as ruas eram as mesmas e não cabiam tantos carros ao mesmo tempo.

À noite quando as faculdades liberavam os alunos era outro corre-corre. As moças não queriam passar por ruas escuras, nem ficarem sozinhas nas paradas de ônibus. O medo do desconhecido era constante. Pediam carona, e quando não conseguiam, se organizavam em turmas até atingir os locais mais movimentados. Nem assim, sentiam-se seguras.

Apesar de não ter um “modus operandi” definido, a polícia já admitia que o assassino cometia os crimes pilotando uma moto. Segundo relatos, ele parava em frente a vítima, – que quase sempre estava sozinha -, levantava a viseira e atirava. Na maioria das vezes era apenas um disparo.

Certeiro, no coração.

Não deixava bilhetes, não manifestava nenhum sinal que pudesse servir para sua identificação. Era um lobo solitário. Isso amedrontava ainda mais as pessoas, pois quando não se tem motivo, qualquer motivo é importante para cometer um crime.

Muitas teorias já se espalhavam pela cidade. Como o bandido atuava em vários momentos, e quase ao mesmo tempo, circulava boatos de que era mais de um assassino. Muitas vezes uma morte acontecia na região norte, e pouco depois, outro acontecimento do mesmo padrão acontecia a quilômetros de distância.

A polícia não conseguia explicar.

As pessoas começaram a evitar saídas desnecessárias, e até mesmo para o trabalho, havia certa dificuldade em se locomover. Em qualquer esquina poderia haver um atirador à espreita. Todo o cuidado era pouco e a vigilância era uma constante. O medo de ser atacado, maior ainda.

Raquel vivia em constante sobressalto.

Desde quando começou a trabalhar no Hospital de Urgências ela já havia sido assaltada duas vezes. Roubos pequenos. Na primeira vez levaram a bolsa, que só continha os documentos e nenhum trocado. O celular estava no bolso do jaleco. Da outra vez, o bendito telefone estava na mão, e ela ficou sem o aparelho.

Ela trabalhava a noite. Seu turno começava às 19:00 horas e varava por toda a madrugada. Muitos casos de acidentes e ferimentos por arma de fogo. Cada vez que chegava uma ocorrência do tipo, já se imaginava outra vítima do “serial killer”.

De manhã, quando encerrava o expediente, ela estava exausta e com sono. Ainda assim, ficava temerosa em voltar para casa. Antigamente ia sozinha. Pegava o ônibus e descia na última parada. Caminhava mais 02 quilômetros até uma rua comprida e deserta, para finalmente abrir o portão de sua casa. Ela morava com a mãe, aposentada, e com um sobrinho, filho de sua irmã caçula.

Esse caminho entre o ponto de ônibus e sua casa era um martírio.

Raquel ficava apavorada cada vez que um desconhecido cruzava o seu caminho. Com o pipocar diário das notícias, ela via em cada motoqueiro o assassino. E às vezes sentia até a dor bala atravessando o peito.

Passou a ir de carona com um amigo até nas proximidades de sua casa. Entretanto, seus horários não eram coincidentes todos os dias. Às vezes o colega ficava de plantão, e ela tinha que se virar sozinha. Não suportou a pressão e falou com sua mãe:

– Vou comprar um carro para mim. Não consigo mais fazer esse trajeto de ônibus ou depender da carona de amigos.

– As coisas estão difíceis, minha filha. Como você vai conseguir comprar um carro com esses preços?

– Tenho umas economias e parte do carro é financiado. Mesmo apertando, vou me sentir mais segura.

A mãe não tinha argumentos para contrapor. Ela também estava com medo. Sofria vendo Raquel sacolejar todos os dias sob tensão na ida e vinda do trabalho. Confiava que a filha saberia controlar as despesas, afinal, era ela que sustentava a casa. Sua aposentadoria mal dava para comprar os remédios e ajudar com a escola do neto que tivera que assumir. Sua outra filha o deixara desde pequeno.

– Se você acha que vai conseguir pagar, eu não me oponho – respondeu depois de um tempo.

Raquel comprou o carro e passou a fazer o trajeto de casa para o trabalho com mais segurança. Ela sabia que duas moças haviam sido atacadas dentro do carro, inclusive, acompanhadas de amigos e namorados. Uma delas havia sido alvejada quando o carro em que estava parou no farol e ela abaixou o vidro. Uma moto parou do lado e o condutor acertou um único disparo em sua têmpora.

Este caso repercutiu de forma avassaladora. O fato acontecera numa região nobre, em uma avenida movimentada, repleta de carros. O assassino estava perdendo o medo e o respeito. Cada vez mais ousado, ele atacava em qualquer hora e em qualquer lugar. Parecia não estar preocupado em ser identificado. Ou quem sabe, quisesse ser pego.

A polícia conseguiu identificar o veículo através de câmeras de vigilância. As placas da moto eram falsas como se previa. Entretanto, juntado as características do veículo e o histórico das câmeras de outros estabelecimentos, os investigadores chegaram até à casa do investigado. Ele já não morava mais naquele endereço. Com base em informações de conhecidos, os agentes conseguiram traçar um retrato falado que foi divulgado para a população.

Raquel continuava sua rotina de trabalho no hospital. Saia de casa por volta das 18:00 horas, chegava no trabalho as 19:00 e voltava para casa no outro dia após as 7:00 horas da manhã. Rotina estafante e com apenas uma folga por semana. Só queria descansar, quando podia.

Naquela tarde, enquanto ouvia o rádio, ela escutou notícias de que haviam identificado o assassino de mulheres.

– Você ouviu as notícias no rádio, Raquel? Identificaram o assassino!

– Ouvi alguma coisa a respeito, mamãe. Prenderam ele?

– Ainda não. Divulgaram um retrato falado, e cabra é danado de bonito. Tomara que o prendam logo, antes que mate mais alguém.

Raquel se envolveu em arrumar suas coisas para o trabalho. Vestiu o uniforme branco, pegou os apetrechos de higiene pessoal e despediu-se de sua mãe. Seria mais uma noite intensa de atendimento no plantão do hospital.

Saiu de casa pensando naquele assassino. Porque as pessoas fazem esse tipo de maldade? Interromper a vida e os sonhos de pessoas que eles nem conhecem. Trazer o sofrimento para gente estranha; despedaçar vidas sem motivo algum…

De repente uma freada brusca a sua frente fê-la acordar de seu devaneio.

Um carro não conseguiu desviar de uma moto que adentrou a rua em alta velocidade. Um baque! Barulho de ferro retorcendo; um corpo estendido no chão. As pessoas pararam olhando com assombro. O rapaz está caído. A mulher ao volante em estado de choque.

Raquel desceu do carro e se aproximou do homem caído. Notou que ele estava inconsciente. As pessoas perceberam seu uniforme branco. Com certeza pensaram que fosse médica, pois se afastaram deixando-a cuidar do acidentado. Ela ficou sem saber que atitude tomar. Um filete de sangue escorria por baixo do capacete.

– Ele precisa ser levado ao hospital – gritou um homem

– Coloque-o em seu carro doutora. Senão ele pode morrer – vociferou outro.

Raquel ficou em dúvida.

O procedimento correto seria chamar o serviço de emergência ou o corpo de bombeiros. Mas diante da pressão, abriu a porta do carro e os homens colocaram o rapaz no banco traseiro. Acelerou para o hospital, querendo chegar o mais rápido possível.

Enquanto dirigia ela pensava como se metera naquilo. Não sabia quem era o acidentado e nem a gravidade das lesões. Não deveria ter cedido ao apelo dos expectadores. Mas agora era tarde. Ela deveria levá-lo à emergência para receber os primeiros socorros. Melhor torcer para tudo dar certo.

No hospital o motoqueiro foi atendido na emergência. Havia fraturado a perna, um braço e tinha um sangramento superficial na cabeça. Os médicos fizeram os primeiros procedimentos e sedaram o paciente. À noite, no intervalo do plantão Raquel foi até a enfermaria para saber o estado do paciente.

Dois policiais guardavam a porta do quarto onde ele estava. Achando estranho ela perguntou porque eles estavam ali.

– O “serial killer” está se recuperando de um acidente neste quarto – informou o policial.

– Como assim? De que “serial killer” o senhor está falando?

– Aquele que matou mais de 20 mulheres. Ele sofreu um acidente de moto e alguém o trouxe para cá. Os médicos o identificaram através do retrato falado e chamaram a polícia. Está tudo confirmado. Ele já confessou. Assim que possível será transferido para a unidade prisional.

Raquel tapou a boca com as mãos sem saber o que dizer. Voltou para o seu posto sem acreditar no que ouvira. Finalmente a cidade estava livre do tormento daquele assassino que andava à solta, matando mulheres indefesas, e sem querer, ela havia contribuído para isso. Apesar do medo que sentira fora até corajosa para dar aquela carona.

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