Um encontro virtual

Zé Barbosa olhava pela janela do seu apartamento. O final da tarde estava calmo, com o sol se escondendo atrás dos prédios e os pássaros buscando agasalho nas copas das árvores. Incrível como acontece essa interação entre asfalto e natureza, pensou. Com um pouco de atenção, podia-se notar que as árvores viviam cheias de habitantes, mesmo entre o selvagem concreto das cidades. É certo que um pouco mais cedo, os trovões escandalosos prenunciavam uma tempestade daquelas. Mas um vento forte dissipou a ameaça de chuva e a algazarra dos pássaros começou. Ideal para uma caminhada, matutava ele.

Sua necessidade de fazer ginástica era uma imposição médica, mas o que ele gostava mesmo era de ver televisão. Estava tentando decidir o que fazer, quando o telefone tocou. O convite do Valeriano acabou com sua indecisão entre caminhar e refestelar-se no sofá.  Na tela, apareceu a cara do amigo, um tanto triste e parecendo abatido.

– Fala Zé Barbosa, tudo bem por aí? Vamos fazer uma caminhada?

Ele ficou com vontade de dispensar o amigo, mas na verdade entendia que ele estava precisando de conversar.

– Você passa aqui ou nos encontramos no parque?

– A gente se encontra lá!

Valeriano era um amigo de longa data. Eles se conheceram na faculdade, ainda solteiros. Mesmo depois de tanto tempo, ainda se encontravam e conversavam como antigamente. Não era daqueles amigos que só falavam de futebol e política, apesar desses assuntos também serem recorrentes entre eles. Conversavam sobre a família, os filhos, o emprego. Sobre a vida dos outros, e, como não podia deixar de ser, sobre mulheres.

– Como está a nova vida, Valério?

– Já vem com essa gracinha! Você nunca para de amolar.  Meu nome é Valeriano, porra!

– Valério é bem mais bonito. Já te falei que se fosse você trocava esse nome. Agora então, que basta ir no cartório. Nem precisa de juiz para isso.

– Deixa pra lá, não quero saber disso. Meu nome é Valeriano, e pronto! Só você tem essa mania de me chamar de Valério.

Valeriano havia se mudado a pouco tempo. Deixou a casa confortável em que vivia com a esposa e os filhos e passou a ocupar um apartamento no centro da cidade. Dois quartos pequenos, uma sala minúscula e uma cozinha menor ainda. O banheiro era tão diminuto, que se alguém fizesse muito barulho lá dentro, quem estivesse na sala escutava tudo.

Estava difícil para ele se acostumar com essa nova situação, mas não tinha outro jeito. Havia se separado, depois de 22 anos de casamento. A esposa e o casal de filhos, um rapaz com 19 anos e a moça com 16 anos haviam ficado na casa. Era justo que fosse assim, afinal, toda sua vida lutara para dar conforto a eles.

Durante o tempo em que foram casados, ele sempre estivera junto da família. Trabalhava na repartição pública e a mulher cuidava da casa e dos meninos. Parecia uma vida perfeita. Mas o castelo havia se desmoronado e agora ele tinha que se virar sozinho.

Contratou uma senhora para limpar o apartamento uma vez por semana e tentava fazer a comida de vez em quando. Quase nunca conseguia acertar no tempero, por isso passou a ser assíduo frequentador do restaurante por quilo da esquina. Comprou uma maquina de lavar e um ferro de passar roupa, e só então descobriu como era importante o trabalho da esposa. Nunca imaginara ser tão difícil fazer coisas tão simples.

– Falou com a Simone novamente? Não tem chance de voltarem a se entender?

– A gente se falou sobre a escola dos meninos. O João Pedro entrou na faculdade, e a Cristiana está terminando o ensino médio. Mas sobre nós a gente não falou.

– Acho que tudo foi um grande mal-entendido. Vocês deveriam superar isso e retomar a vida.

– Não é tão simples assim, Barbosa. Ficou um buraco que não sei como preencher. Ela também não sabe. Temos que dar tempo ao tempo, quem sabe acontece algum milagre.

Zé Barbosa se lembrava dos fatos. Havia alertado o amigo para os perigos que rondam essa febre tecnológica da vida moderna. Celulares que faltam adivinhar os pensamentos, pessoas escondidas atrás de perfis falsos, Fake News e muita desinformação. A armadilha perfeita para pessoas desavisadas.

Valeriano era encantando com esses aparelhinhos modernos desde os primeiros lançamentos. Havia comprado seu primeiro Ipod, quando só servia para escutar música. Depois foi incorporando as novas tecnologias. Trocava os fones de ouvido constantemente, e cada novo modelo de celular que aparecia, era um dos primeiros a comprar.

Ele era um assíduo usuário do Facebook. Não gostava muito do Instagram e nem do Tik Tok. Achava essas plataformas mais complicadas. Fazer vídeos não era muito sua praia. Gostava mesmo das conversas do Whatsapp e adicionar amigos no Facebook. Já tinha mais de 2 mil amigos, e principalmente, amigas virtuais. Muito mais que em toda sua vida. Ele trocava ideias, discutia futebol e política. Todos os dias postava o bom dia e o boa noite, sempre acompanhados de um emoji ou de uma figurinha com frases motivadores. Seu preferido era o coração. Às vezes um, outras vezes uma coleção deles, sobrepostos.

É certo também que já caíra em alguns golpes, como fazer um deposito para o Barbosa, quando clonaram o telefone dele e pediram dinheiro. De outra feita, quando ligaram pedindo um resgaste, alegando que sua filha havia sido sequestrada. Ele só não pagou os bandidos porque no exato momento da transferência a filha chegou acompanhada da mãe.

Valeriano não deixava ninguém acessar o seu celular. Quando a mulher ou os filhos reclamavam, ele dizia que cada um tinha o direito à sua privacidade. Curtia as fotos das modelos e de muitas outras mulheres das quais se tornara “amigo” nos aplicativos. E mantinha essa rotina de segredo somente entre ele e alguns colegas de trabalho. Com o tempo ninguém mais reclamou de suas manias.

Mas nada se comparou ao evento que virou sua vida pelo avesso.

Um amigo falou do aplicativo de encontros, Tinder, onde as pessoas buscavam parceiros para relacionamentos. Ele até fez o cadastro, no entanto não se encorajou a participar. Achava muito arriscado e podia trazer complicações. Até que um dia um amigo do trabalho foi mais incisivo:

– Tem um site de relacionamentos somente para pessoas casadas, Valeriano. Você cria um perfil falso, e começa a relacionar. Se der certo, você marca um encontro. Eu já fiz isso e deu tudo certo.

– Cara, isso é muito arriscado. Não sei se vou conseguir.

– Que arriscado que nada! A mulher também não quer aparecer.

– E se ela também criar um perfil falso? Como vou ficar sabendo que é ela?

– Ora, você pede fotos!

E assim, Valeriano mergulhou de cabeça no mundo virtual. No começo foi uma nova descoberta a cada dia. Se relacionou com várias mulheres, cada uma mais linda que a outra. Ele também era um cara bonitão na internet. Havia escolhido a foto de um modelo para o seu perfil e adotou o nome de Matheus. Criou informações falsas, como ser empresário e atleta de alta performance.

Seus batimentos dispararam de verdade quando navegava pelo site e encontrou Marina. Ele enviou aquela figurinha de mão aberta, que significa “olá” .  Ela respondeu com um coração. Foi a senha para iniciar a conversa. Já começou falando da coincidência das letras inicias. Papo tão inocente como dois colegiais:

– Nossos nomes começam com a letra M. Isso parece uma coisa do destino, você não acha?

– É mesmo. Uma coincidência e tanto. O que você faz na vida? – perguntou ela.

– Sou empresário do ramo de transportes. Minha empresa de logística atua em várias cidades – disse ele, orgulhoso.

– E você, qual a sua atividade?

– Eu sou empresária do ramo de confecções. Tenho uma fábrica de roupas femininas.

Ela falou até a marca, que ele nem se deu ao trabalho de anotar.

A mulher era realmente bela. Na casa de seus 45 anos, branca dos cabelos pretos e compridos. Um sorriso deslumbrante e um rosto bastante amistoso. Parecia até que já vira sua foto em alguma propaganda de revista. A conversa fluiu durante semanas e adentrou por meses a fio. Já eram íntimos e trocavam carícias completas pelo celular. Só não trocavam fotos e nem vídeos, mas nem era preciso. O tesão se estabelecia assim que iniciavam a falar de intimidades. Coisa que já não acontecia entre ele e Simone, sua esposa.

O namoro estava tão quente que nem procurava mais a esposa. Ela reclamou no começo, mas depois deixou pra lá. Tinha seus afazeres e também suas demandas na internet, que tomavam seu tempo. Quando ele quisesse, ela estaria pronta.

Certo dia, durante a caminhada falou para o amigo:

– Marcamos um encontro, Barbosa. Vai ser naquela praça perto do centro.

– Verdade!? Esse troço vai te arranjar um caroço dos grandes.

– Nada. A gente vai se encontrar e ver o que rola. Já estamos íntimos.

– Toma cuidado. Se a Simone descobre, você está ferrado.

– Ela não vai descobrir. Você vai comigo amanhã? Tem que ver como ela é linda. Quando ela chegar, você dá uma desculpa e sai.

– Ok. Te encontro lá.

– Marquei às 16 horas. Chega um pouco mais cedo. Vou chegar 15:30

Valeriano parecia um menino quando vai ao encontro da primeira namorada. Mal dormiu naquela noite e nem notou que sua esposa também estava bastante agitada. No outro dia fez a barba, almoçou quase nada e às 15:00 horas saiu de casa. Levava uma sacola, dizendo que passaria no mercado mais tarde. Na verdade, dentro havia uma camisa da seleção brasileira, com o número 10 estampado no peito. Era a senha que combinara com Marina. Uma camisa da seleção e um boné de aba sobre os olhos.

Ela combinou que iria com uma saia vermelha e blusa florada. E no cabelo uma flor amarela. Não tinha jeito de se enganar.

Um pouco antes dele sair, Simone disse que iria visitar a irmã. Ela nem gostava muito dessas visitas, mas ele não se importou. Ainda bem que ela iria se entreter com a cunhada que nunca parava de falar e esqueceria de ligar para ele.

Chegou na praça às 15:20 e observou o ambiente ao derredor. Poucas pessoas zanzavam por ali naquela hora. Vestiu a camisa da seleção brasileira por cima da camiseta e ajeitou o boné. Zé Barbosa chegou e bateu nas suas costas, gozando com ele:

– Suas pernas estão inquietas, Valério. Tá nervoso demais, cara!

– É verdade. Minha vontade é ir embora. Agora que estou aqui, não sei se fiz o certo. Parece que o namoro pela internet é bem melhor.

O tempo passou rápido. Quando o relógio marcou 15:59 dava para escutar a batida do coração no peito do Valeriano. Ele nunca havia traído a esposa, a não ser pelo celular. Mas isso não contava, pensava ele.

Zé Barbosa cutucou seu braço:

– Está chegando, Valério. Parece bonita mesmo. Do jeitinho que você falou.

A morena havia despontado no canto da praça e andava resoluta para o local onde eles se encontravam. A camisa amarela destacava de longe. Não tinha como errar. Matheus estava logo ali. Finalmente se encontrariam. O boné não deixava divisar seu rosto, mas parecia bonito.

Valeriano firmou os olhos enquanto ela se aproximava. À medida que a mulher chegava mais perto, ele empalidecia.

– Não é possível o que está acontecendo, Barbosa. Estou vendo uma miragem?

– Valério de Deus! É a comadre Simone! – exclamou ele.

Valeriano queria que o chão abrisse e o soterrasse ali mesmo. Quis correr, mas as pernas não obedeceram. Olhou para o Barbosa e notou o quando o amigo estava assustado. A mulher chegou e parou ao lado dele. Ela também estava nervosa, que nem prestou atenção que o compadre Barbosa estava sentado ao lado do seu namorado virtual.

– Boa tarde, Matheus.

Valeriano levantou a cabeça e tirou o Boné. Simone levou um susto tão grande que suas pernas fraquejaram. Desmaiou nos braços do esposo. Alguns segundos depois ela acordou e não sabiam o que falar. Voltaram para a casa sem trocar palavras. Uma semana depois Valeriano se mudou. Não havia clima para continuarem juntos.

A voz do amigo lhe trouxe de volta.

– Qualquer dia convide a Simone para jantar, Valério. Vocês precisam de outra chance.

– Pode ser. Assim que eu criar coragem talvez faça isso.

– Pelo que você me disse, ela é uma excelente namorada virtual.

– Nem só virtual, Barbosa. Pessoalmente também. Mas a confiança entre nós ficou abalada. Quem sabe um dia a gente volta a se entender.

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